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Gene de traça

Livros e etc.

Viagem no tempo

por anacb, em 30.08.15

 

MAR DE PAPOILAS

Amitav Ghosh

mar de papoilas.jpg

 

 

Título: Mar de Papoilas

Título original: Sea of Poppies

Autor: Amitav Ghosh

Ano de lançamento: 2008

 

Editora: Editorial Presença

Publicação: 1ª edição – Maio 2009

Número de páginas: 460

Tradução: Marta Mendonça

 

 

Norte da Índia, primeira metade do séc. XIX, vésperas do ataque britânico aos portos da China naquela que ficou conhecida como a primeira guerra do ópio. Sob o domínio britânico, o país está a sofrer grandes mudanças; os agricultores são forçados a abandonar o cultivo de produtos importantes para a sua subsistência, substituindo-os pelo ópio, muito mais rentável para a Companhia Britânica das Índias Orientais.

 

Chega a Calcutá o anteriormente navio negreiro Ibis, agora adaptado ao transporte de coolies (trabalhadores braçais) para as plantações de açúcar das ilhas Maurícias. Para ele vão convergir várias pessoas, oriundas de locais e enquadramentos variados, cujas histórias individuais seguimos durante algum tempo, até que se fundem numa só – a história da viagem do Ibis. A viúva de um agricultor ópio-dependente, um gigante condutor de carroças, um marinheiro descendente de escravos americanos, um rajá anglófilo, um comerciante britânico sem escrúpulos, um contabilista espiritual, a filha órfã de um botânico francês, um jovem barqueiro, todos eles vão cruzar-se e terem as suas vidas entrelaçadas a bordo do Ibis.

 

“Mar de Papoilas” é um romance histórico, o que quer dizer que o enredo é apenas uma parte da história. O autor vai bem mais além, e oferece-nos como bónus um manancial de informação sobre a Índia do séc. XIX: comida, vestuário, cultos religiosos, ritos funerários e de casamento, trocas comerciais, justiça criminal, medicamentos tradicionais, navegação e tudo o mais que consegue ter lugar no desenrolar da história. As descrições são vívidas, coloridas, pormenorizadas, e fiéis aos documentos históricas tanto quanto possível. Ghosh pinta um quadro realista da época e dos seus costumes, até mesmo na linguagem que utiliza, cheia de termos específicos nem sempre fáceis de assimilar, porque reproduzidos na língua original – e esta será provavelmente a parte mais complicada da leitura. Felizmente, no final do livro são disponibilizadas algumas páginas em jeito de dicionário, onde todos os termos são explicados e descritos em pormenor. Mais interessante ainda, para mim, foi constatar que muitos desses vocábulos são de origem portuguesa, o que se pensarmos bem até nem será surpreendente, atendendo à nossa longa presença no território e ao domínio português das rotas comerciais marítimas durante vários séculos.

 

O final de “Mar de Papoilas” é aberto, deixa-nos a ansiar por saber o que virá a seguir. E a razão é simples: é o primeiro livro de uma trilogia. Em 2011 foi publicado “River of Smoke”, e em 2015 “Flood and Fire”. Infelizmente, e vá-se lá saber porquê, estes dois volumes não foram publicados em português - pelo menos não até à data. Mais uma lamentável lacuna no panorama editorial do nosso país… A história de “Mar de Papoilas” é uma verdadeira viagem no tempo, contada de forma vívida, realista e empolgante, e uma que eu gostaria de continuar. Mas neste momento, só se for em inglês…