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Gene de traça

Livros e etc.

Ken Follett

por anacb, em 12.09.16

 

Não é muito frequente para um escritor que passou uma boa parte da sua vida a escrever thrillers e livros sobre espionagem acabar por vir a ser aclamado mundialmente devido a um romance histórico. Mais estranho ainda é quando esse romance atinge o sucesso mundial mais de dez anos depois de ter sido escrito. E no entanto, em traços gerais isto aplica-se exactamente a Ken Follett, o que mostra que os caminhos da literatura são por vezes misteriosos.

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Nascido no País de Gales em 1949, no rescaldo da 2ª Guerra Mundial, Follett não teve obviamente uma infância fácil, menos ainda por ser o filho mais velho de um casal profundamente religioso que nem sequer permitia que os seus três filhos ouvissem rádio, muito menos que vissem televisão ou fossem ao cinema. A família mudou-se para Londres quando ele tinha dez anos, o que lhe permitiu mais tarde estudar filosofia na Universidade. E é precisamente devido a estes factores que Ken Follett diz ter tido a possibilidade de se tornar escritor: a falta de acesso aos meios de comunicação social apurou-lhe o gosto pelas histórias que a mãe lhe contava; a necessidade de se distrair obrigou-o a recorrer à imaginação e a aprender cedo a ler; as dificuldades financeiras próprias do período em que cresceu levaram-no a fazer da biblioteca uma sua grande aliada; e o curso de filosofia ajudou-o a desenvolver as suas capacidades imaginativas ao ter de encontrar respostas credíveis para questões difíceis.

 

Diz ele na sua biografia: “Eu não possuía muitos livros e sempre dei graças pela existência da biblioteca pública. Sem livros gratuitos não me teria tornado um leitor voraz, e se não formos leitores também não seremos escritores”. Esta ligação da leitura à escrita não é propriamente um segredo, mas sabe sempre bem ouvi-la da boca de quem escreve.

 

Começou a carreira de escritor pelo jornalismo, mas foram problemas financeiros que o empurraram para a ficção, quando já trocara os jornais por um cargo numa pequena editora londrina, a Everest Books. Os seus primeiros dois livros foram publicados em 1974 sob o pseudónimo de Simon Myles. Mas o sucesso chegou só em 1978 com “O Buraco da Agulha” (mais recentemente editado em Portugal com o título “O Estilete Assassino”), que chegou a n.º 1 no top de vendas nos EUA e pelo qual a associação Mystery Writers of America lhe deu um prémio em 1979. O livro serviu de base para um excelente filme inglês de 1981 com o mesmo título – e se nunca o viram, aconselho-o vivamente.

 

“A ficção tem de envolver emocionalmente o leitor. Todas as coisas dramáticas que acontecem nos thrillers só funcionam se os leitores se preocupam com as pessoas envolvidas.” E esta é sem dúvida uma das lições que Follett aprendeu cedo na sua carreira de escritor.

 

Estranhamente (ou talvez porque teve o americano Al Zuckerman como amigo e agente literário), durante muitos anos Ken Follett foi mais vendido e apreciado nos Estados Unidos do que na Europa, onde só começou a despertar verdadeiramente as atenções por volta do ano 2000 depois de já ter publicado 30 livros. Mesmo “Os Pilares da Terra”, publicado inicialmente em 1989, só atingiu na altura o topo das vendas em cinco países – muito longe do boom que ocorreu em todo o mundo depois da sua republicação em 2007, e que trouxe o autor definitivamente para as luzes da ribalta. Hoje, Ken Follett pode ser lido em 35 línguas e em mais de 80 países. É popularíssimo e quase venerado em Espanha, onde curiosamente existe desde 2008 uma estátua sua, em tamanho real, colocada em frente à Catedral de Vitoria-Gasteiz, no País Basco – segundo Follett, foi uma visita a esta Catedral que o inspirou a escrever “Um Mundo Sem Fim”, a sequela publicada em 2007 de “Os Pilares da Terra”.

 

O primeiro livro de Follett que li foi “A Chave para Rebecca”, algures pelos inícios dos anos 80 (cortesia da Reader’s Digest, e actualmente em parte incerta numa das muitas estantes de livros que há em casa dos meus pais), e gostei tanto que até hoje não me esqueci dele. É uma história de espionagem pura, com um enquadramento histórico (a 2ª Guerra Mundial, que tem sido uma mina de inspiração para o escritor) e geográfico (Egipto) absolutamente credíveis, e muito envolvente. Há um lado bom e um lado mau, cada um deles representado por uma das personagens principais, e vamos acompanhando a história de pontos de vista alternados, num jogo permanente de Follett com os sentimentos de quem lê.

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Bastantes anos mais tarde (em 1994, um ano depois da publicação original), pela mão do Círculo de Leitores comprei “Uma Fortuna Perigosa”, que devorei num ápice – e que é um dos livros que empresto recorrentemente a quem me pede algo que não seja romance de amor nem muito pesado. Assassínios, intrigas e paixões na Inglaterra do séc. XIX, numa história que gira à volta do dinheiro, da avidez e da degenerescência moral. Se extrairmos a história do seu enquadramento histórico, o tema continuaria actual, porque a verdade é que os tempos mudam, mas o ser humano nem tanto…

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Por esta altura, e pelas experiências anteriores, o nome de Ken Follett já era para mim sinónimo de leitura que “agarra”. Mas como que a desmentir a minha ideia pré-concebida, o livro que comprei a seguir não me entusiasmou por aí além. “O Terceiro Gémeo”, na minha opinião, fica uns quantos furos abaixo dos outros livros dele que li até agora. O tema – os perigos da engenharia genética e da clonagem, e blá blá – apesar de na altura não ser tão banal já era suficientemente desinteressante para mim. Tal como em tempos o raio laser foi o “bicho-papão” de muitos livros e filmes e do imaginário colectivo, quando ainda não era utilizado para milhentos fins benéficos como acontece hoje, a engenharia genética também teve a sua época de “má da fita”, actualmente já bastante ultrapassada.

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Também do Círculo tenho “Os Filhos do Paraíso” (originariamente publicado em 1998, mas cá apenas em 2000), uma história com muita acção que mistura o fanatismo de uma seita hippie pretensamente ecológica com terrorismo, e onde mais uma vez Ken Follett não me desiludiu.

 

Em “Contagem Decrescente”, o escritor volta ao tema da espionagem, desta vez na época da Guerra Fria. “Nome de Código Leoparda” (outro dos meus preferidos) tem novamente a 2ª Guerra Mundial como pano de fundo, mas desta vez a história de espionagem vive-se no feminino (um pouco à semelhança de “O Buraco da Agulha”, mas num ambiente completamente diferente). Para “Voo Final”, baseado numa história verídica passada igualmente durante a 2ª Guerra, Ken Follett deu-se ao trabalho de aprender a pilotar um avião. E explicou a razão numa entrevista: “Eu sabia que teria de escrever cerca de quarenta páginas com este miúdo a pilotar um avião. E não poderia fazê-lo se não tivesse de facto pilotado eu próprio um avião”.

 

Com “A Ameaça”, em 2004, Follett voltou ao thriller e ao tema dos perigos da biologia e da ciência. Mas foi também com este livro que encerrou, pelo menos até agora, a sua fase das histórias de acção e espionagem para se dedicar mais afincadamente aos romances históricos.

 

Em 2007, o lançamento de “Um Mundo Sem Fim” e a republicação de “Os Pilares da Terra” trouxeram-lhe finalmente o reconhecimento mundial e um lugar cativo nas listas dos mais vendidos. Em Portugal, cada um destes livros foi publicado em dois volumes separados. Porque assim podem ser publicados com letra maior? Para os leitores não se assustarem com o tamanho do volume? Ou por estratégia de marketing e de comercialização, para renderem mais lucro e maior número de exemplares vendidos? Provavelmente por tudo isto.

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O certo é que estas duas obras são ficções históricas brilhantemente concebidas, em cujo “cozinhado” Follett consegue incorporar de forma apuradíssima todos os elementos que usa habitualmente nos seus livros para despertar o interesse do leitor: fidelidade histórica q.b., personagens essencialmente boazinhas ou vilãs mas que às vezes “descarrilam” para o outro campo, segredos, tragédia e até crueldade, mas sempre criando em nós a expectativa de um final feliz.

 

Não li (ainda, mas hei-de ler) os livros da “Trilogia do Século”. Mas diz quem leu que são igualmente bons. Podem aproveitar para ler as opiniões da Magda e da Márcia (aqui e aqui) sobre estes livros.

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Está previsto que a sua próxima obra, que tem o título provisório de “A Column of Fire”, saia no Outono de 2017. Com o reinado de Isabel I de Inglaterra como pano de fundo, a história começa em Knightsbridge (sim, a localidade de “Os Pilares da Terra”) mas vai passar por muitos outros locais emblemáticos – incluindo Sevilha, talvez para agradar (ou agradecer, quem sabe) ao seu imenso público espanhol. É precisamente disto que nos fala nesta mensagem que gravou em vídeo no final 2015.

 

“O meu objectivo pessoal é escrever prosa transparente”, afirma Ken Follett numa das páginas do seu website oficial. Vinda de um homem que já vendeu mais de 150 milhões de cópias dos seus livros, esta declaração é no mínimo corajosa e estranhamente pouco egocêntrica. Apesar de tanto sucesso, Follett parece saber bem onde se situa no mundo da literatura. Não tem a ambição de escrever obras-primas, mas sim livros que cativem quem os lê. Ele próprio assume que quando escreve pensa primeiro naquilo que o leitor quererá, se gostará mais ou menos de determinada personagem. Não escreve para si, mas sim para quem vai ler os seus livros.

 

Talvez seja precisamente este um dos seus segredos: saber para quem escreve, e porquê. Outro segredo? Um trabalho árduo e metódico de pesquisa, esboço e escrita de cada livro. Afinal, o sucesso não se consegue só com inspiração, é preciso trabalhar para ele – e isto é absolutamente válido para todos os aspectos da nossa vida. Como ele mesmo diz, “If there’s a way to make it better, you have to do it.”

 

 

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