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Gene de traça

Livros e etc.

Dos livros e seus filmes

por anacb, em 20.06.15

Não sei se já o disse aqui, mas é raro eu gostar mais de um filme do que do livro que o inspirou. Assim de repente, lembro-me apenas de um: “O Paciente Inglês”, realizado por Anthony Minghella com base no livro de Michael Ondaatje, embora talvez exista mais um ou outro caso. Há alguns filmes de que gostei tanto como dos livros – a saga Harry Potter, por exemplo, ou o excelente filme “Quarto com Vista Sobre a Cidade”, de James Ivory, com as maravilhosas actrizes Maggie Smith e Helena Bonham-Carter (aqui no início da sua carreira), e baseado no também excelente romance de E. M. Forster -, mas de um modo geral acho sempre que os filmes ficam um pouco (quando não muito) aquém dos livros. E é por esta razão que prefiro ver primeiro o filme e só depois ler o livro, pois quando sucede o contrário acabo quase sempre por sair desiludida do cinema (ou do sofá, dependendo das circunstâncias…).

E como um dos meus géneros preferidos de livro é o policial, é óbvio que li religiosamente e de um fôlego a trilogia Millennium do Stieg Larsson, aproveitando uma altura de férias há coisa de uns quatro anos. Li e gostei imenso, e sobre estes três livros acho que não vale a pena dizer mais nada porque já tudo foi dito e escrito. Quem já os leu também sabe do que falo, e a quem não leu aconselho que não espere mais tempo e vá a correr comprá-los, porque foram (são) uma pedrada no charco da literatura policial.

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Como é também óbvio, quando em 2012 estreou em Portugal o filme de David Fincher que recria a história do primeiro livro, “Os Homens que Odeiam as Mulheres”, fiz questão de ir vê-lo ao cinema. Não sendo tão empolgante quanto o livro, ainda assim o filme agradou-me mais do que estava à espera, apesar de ter do princípio ao fim os clichés normais dos filmes americanos que vemos constantemente. Mas conta com boas interpretações de grandes actores, está bem realizado, e não se afasta demasiado do livro, apesar de lhe faltar alguma profundidade. No todo, achei-o uma adaptação razoável.

Antes, em 2009, já tinha sido exibido nas salas de cinema portuguesas o filme sueco com base no mesmo livro, em relação ao qual os críticos se dividiram e que um colega meu me desaconselhou, por não ter gostado dele. Por essa razão ou por qualquer outra, a verdade é que na altura não fui vê-lo.

Sucede no entanto que há uns dias atrás passaram, no Fox Movies da televisão por cabo e todos de seguida, os três filmes suecos feitos precisamente a partir das histórias da trilogia. Claro que ao tê-los assim à disposição todos juntos, a minha curiosidade falou mais alto e não resisti à tentação.

E não é que tive uma agradável surpresa? Quando comecei a ver o primeiro ainda estava meio desconfiada, à espera de me aborrecer e desistir de ver até ao fim, mas a verdade é que não podia estar mais enganada: gostei imenso do filme, tanto que acabei por ver também os outros dois, e tudo praticamente de uma assentada.

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Para falar com franqueza, gostei bastante mais do filme sueco do que do seu congénere americano. A diferença está não tanto na adaptação do argumento, já que ambos são suficientemente fiéis ao original (o sueco talvez um pouco mais do que o americano), mas sobretudo na atmosfera que nos é transmitida. É um filme mais “real”, em todos os sentidos. As personagens são credíveis, são homens e mulheres de verdade, com rugas, barriga e poros dilatados. Os diálogos poderiam ser verdadeiros, ditos por alguém como eu ou vocês, os cenários estão cheios de pormenores comuns a qualquer ambiente onde vivem pessoas vulgares, e as cenas de violência ou de acção têm a dose certa de verosimilhança, sem caírem no exagero. A personagem feminina principal, Lisbeth Salander, está brilhantemente interpretada por Noomi Rapace, que consegue transmitir-nos ao mesmo tempo a ideia de força e vulnerabilidade que Stieg Larsson atribuiu à heroína dos seus livros. Quanto a Michael Nyqvist, que interpreta o papel do jornalista Mikael Blomkvist (uma espécie de alter ego do próprio Stieg Larsson), tem uma actuação quanto a mim talvez demasiado contida – mas a verdade é que os suecos são, pelo menos em muitos dos seus filmes, de uma maneira geral algo inexpressivos.

Os dois filmes da sequela, “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” e “A Rainha no Palácio das Correntes de Ar”, têm realizador e características ligeiramente diferentes do primeiro. Os três filmes foram lançados no mesmo ano, e por isso existe alguma unidade entre eles, mas no segundo e terceiro nota-se uma acentuada vocação para serem telefilmes, enquanto o primeiro está nitidamente feito para exibição numa sala de cinema. Mesmo assim, não desapontam. Tirando um ou outro pormenor mais teatral e a óbvia dificuldade de condensar em cerca de duas horas e meia livros de 600 ou 700 páginas, são também bastante fiéis à história original e o nível das interpretações mantém-se.

Dito isto, não vou cair no exagero de dizer que os filmes são tão bons quanto os livros. Mas andam lá perto. Talvez seja porque já li os livros há uns anos e obviamente não me recordo de todos os pormenores, ou talvez porque tal como a sua literatura, o cinema nórdico deu o salto para o século XXI, actualizando-se sem perder as suas características de qualidade (veja-se o exemplo da série dinamarquesa de sucesso “The Killing”, e não só). O que sei é que me surpreenderam pela positiva, e dei por bem empregue o meu tempo.

Por isso, se puderem, vão procurar os filmes no guia da tv por cabo de sábado passado (ou no videoclube) e preparem-se para várias horas de bom cinema. Tenho a certeza de que não vão arrepender-se; afinal, um bom livro é meio caminho andado para um bom filme.

Depois não digam que não vos avisei.

 

(se quiserem saber mais sobre os filmes, é só seguirem este link: http://foxmovies.canais-fox.pt/artigos/especial-trilogia-millennium-1)

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