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Gene de traça

Livros e etc.

Obrigada, SAPO! #8

por anacb, em 19.12.16

 

E aqui está a minha primeira prenda de Natal: um destaque em grande na página do SAPO Blogs. Não podia começar melhor a semana :-)

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Obrigada à incansável e simpática equipa do SAPO Blogs. E Feliz Natal!

 

*Actualização: E se uma prenda é bom, duas ainda é melhor. Também tenho direito a destaque na homepage do SAPO. Tãããão bom!!!

 

Destaque SAPO homepage livros amigos 19-12-16 marc

 

 

Entre aspas #12 Muriel Rukeyser

por anacb, em 19.12.16

 

Entre aspas #12 Muriel Rukeyser.jpg

 

O livro certo para oferecer a cada amigo

por anacb, em 15.12.16

 

Todos os anos, pelo Natal, repete-se a angústia das prendas. O que dar a A, B ou C? Não queremos estar sempre a oferecer as mesmas coisas, mas às tantas a imaginação começa a falhar. Pois meus amigos, a solução não é nova mas é simples, e tem uma palavra: livros. Sim, livros. Há milhares, milhões de títulos disponíveis, por isso a fonte de inspiração é inesgotável. A pessoa em questão não gosta de ler? Não há problema, oferece-se um livro com fotos, ou que ensine a cozinhar, a cuidar do cão, ou a fazer qualquer outra coisa. Ainda por cima os livros têm a vantagem de ocupar pouco espaço, podem passar de pais para filhos (e os livros antigos têm sempre algum valor) e são facilmente armazenados ou vendidos se necessário. Tudo coisas boas. Ah, não sabem que livro hão-de oferecer? Não paniquem, este post é precisamente para vos sugerir algumas opções para aqueles amigos/amigas mais difíceis. Com a garantia de que já foram lidos por mim (com uma única excepção) e portanto têm “selo de qualidade” (cof! cof!). Serviço público, pois claro. E não precisam de agradecer.

 

O livro certo para oferecer a cada amigo.jpg

 

 

 

Para o amigo que se recusa a tirar a carta de condução

 

O Diário da Bicicleta, de David Byrne

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Talking Heads diz-vos alguma coisa? Exactamente: o autor deste livro é nada mais, nada menos do que o vocalista desta famosa banda, que nos conta em jeito de crónica os seus passeios de bicicleta em vários locais do mundo, o que observa durante esses passeios e as divagações que lhe ocorrem. Acutilante e elucidativo.

 

 

Para a amiga que adora vintage

 

O Tempo entre Costuras, de Maria Dueñas

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Ela vai adorar este movimentado romance histórico que conta as peripécias da vida de uma bem-sucedida modista que se envolve numa rede de espionagem durante a Segunda Guerra Mundial, tendo como pano de fundo Madrid, Lisboa e os enclaves espanhóis no norte de África.

 

 

Para o amigo que é fã do Japão

 

Mil Grous, de Yasunari Kawabata

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A ritual cerimónia do chá, a delicadeza, a serenidade que esconde um turbilhão de emoções, a rigidez social, aquilo que é perceptível mas nunca é dito – o espírito japonês presente em cada linha desta história de desejo e sofrimento que envolve um homem e várias mulheres.

 

 

Para a amiga que é muito zen

 

O Tao do Pooh, de Benjamin Hoff

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Conhecer os princípios do taoísmo pela mão do ursinho mais mediático e fofo da literatura? O resultado só poderia ser um livro diferente e muito divertido. (A minha opinião sobre este livro está aqui.)

 

 

Para o amigo super ansioso

 

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, de Joël Dicker

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Quando ele ler este livro, das duas uma: ou tem as unhas todas roídas ao chegar ao fim, ou fica para sempre curado da ansiedade. Surpresas atrás de surpresas, é o que este livro nos traz. A minha opinião completa está aqui .

 

 

Para o amigo que quer fazer carreira na política

 

Wolf Hall, de Hilary Mantel

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Wolf Hall conta parte da história de Thomas Cromwell, que ascendeu de homem comum a secretário do Cardeal Wolsey, depois a membro do Parlamento inglês e mais tarde a primeiro-ministro do rei Henrique VIII. Foi o grande impulsionador da Reforma inglesa, e o rei concedeu-lhe os títulos de barão e depois de duque, além de o nomear Vigário-Geral. Haverá melhor exemplo de carreira política? No final o feitiço virou-se contra o feiticeiro, e Cromwell acabou vítima do seu próprio sistema, como se sabe – e deste facto também haverá ensinamentos a tirar para quem quer dedicar-se à política…

 

 

Para a amiga que é (ou quer ser) arquitecta

 

Gaudí – Um Romance, de Mario Lacruz

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Um manuscrito inacabado sobre um grandioso arquitecto cuja morte comezinha deixou inacabada uma obra magnificente. Prova de que os homens morrem mas as obras dos que são grandes permanecem.

 

 

Para o amigo que está sempre em viagem

 

As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino 

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Ele já conhece o mundo inteiro, mas estas cidades não conhece certamente – nem nunca vai ter hipótese de conhecer…

 

 

Para a amiga que gosta de viajar e escrever

 

1000 Places to See Before You Die, de Patricia Schultz

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Mas só mesmo se ela é daquelas que toma notas de tudo e mais alguma coisa quando vai de viagem, ou que escreve efectivamente sobre o que viu. Caso contrário, vai ficar desapontada quando abrir o livro…

 

 

Para o amigo que sonha ser comediante

 

A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, de Ricardo Araújo Pereira

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O resto do título – “uma espécie de manual de escrita humorística” – já lança o mote. E com ou sem humor, o RAP é sempre inspirador e bom de ler.

 

 

Para a amiga que adora dançar

 

Tango, de Elsa Osorio 

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O tango é uma dança, mas também uma forma de sentir, de ouvir, de respirar, de amar, de viver. Tal como o tango, este livro tem vários ritmos, e lê-se como quem dança.

 

 

Para o amigo que gosta de jazz

 

Mas é Bonito, de Geoff Dyer

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O espírito do jazz transformado em livro, crónicas brilhantes – meio verdadeiras, meio ficcionadas – sobre o mundo e algumas personagens do jazz. Quase que um improviso (muito bem executado) em forma de leitura. Tema do meu segundo post neste blogue.

 

 

Para a amiga que gosta de cozinhar

 

A Congregação da Cozinha, de Nora Seton

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Este livro não é mastigável mas tem os cheiros e sabores e o calor de uma cozinha onde se vive, e onde a comida é preparada também com o coração. E como bónus ainda tem receitas.

 

 

Para o amigo vegan

 

Vaca Sagrada, de David Duchovny

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As aventuras e desventuras de uma vaca que de repente descobre que afinal as vacas não vão para o céu. Uma fábula bem-humorada do conhecido actor de Ficheiros Secretos e Californication. E se até a Elsie perdoa aos humanos, porque não podemos nós perdoar as fraquezas dos outros? Também já escrevi um post inteirinho sobre este livro.

 

 

Para a amiga que não suporta crianças

 

A Bofetada, de Christos Tsiolkas

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Uma reacção emocional simples pode ter consequências verdadeiramente desastrosas? Ai pode, pode… A história deste livro é a prova. Depois de o ler, a vossa amiga vai parar para pensar (duas vezes, ou três, ou dez…) sempre que lhe apetecer dar um estalo numa criancinha.

 

 

Sons para ler

por anacb, em 13.12.16

 

Embora consiga ler com qualquer ruído de fundo (e se o livro for daqueles mesmo bons, até me esqueço de que o mundo existe), por norma não sou grande apreciadora de estar a ler e ao mesmo tempo a ouvir música ou barulhos de televisão, por exemplo.

 

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E se estiver a trabalhar em qualquer coisa que necessite de grande concentração, ou a escrever, então ainda é pior. Consigo e gosto de trabalhar a ouvir música, mas o som tem de estar baixinho, e só quando estou com trabalhos que faço em “piloto automático”. Estar a fazer uma tradução complicada, por exemplo, e ao mesmo tempo a ouvir alguém cantar ou falar, mesmo que seja numa das línguas em que estou a traduzir, cria-me confusão e parece que o trabalho não rende o mesmo.

 

Descobri agora que existe um site maravilhoso (que também tem app para Android e iOS) com um sem-número de sons ambiente que não só não atrapalham quem está a ler ou a trabalhar como ainda por cima podem ajudar-nos a concentrar, a descontrair ou até mesmo a adormecer, consoante o efeito pretendido.

 

Chama-se Ambient-Mixer, e o link é este: http://www.ambient-mixer.com/.

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Aqui é possível encontrar todo o tipo de ambientes sonoros e musicais, desde os provocados por máquinas ou seres humanos até aos sons da natureza de toda a espécie, e mesmo de supostas atmosferas “irreais”. Há também sons de ambientes relacionados com jogos e filmes. Alguns dos mais populares actualmente são, por exemplo, os das salas de alunos das casas de Gryffindor e de Slytherin, os da biblioteca de Hogwarts, ou o som de uma tempestade no expresso de Hogwarts. E se alguém não souber de que é que estou a falar, eu explico em duas palavras: Harry Potter.

 

Os ambientes disponibilizados podem ser misturados ao gosto de cada um, intensificando ou reduzindo (ou até mesmo eliminando) a frequência e o volume de cada um dos elementos sonoros que os compõem. O site oferece ainda a possibilidade de criar novos sons, à medida das nossas necessidades ou humor, e partilhá-los ou usá-los como fundo sonoro para vídeos. A utilização é gratuita excepto os downloads, que têm de ser pagos.

 

A app funciona de forma basicamente semelhante, mas tem uma particularidade extra bastante atractiva: o night timer, que permite adormecer tendo como som de fundo qualquer ambiente que se escolha e programar a hora de o desligar, para evitar que de manhã a bateria esteja descarregada. No entanto, na app não é possível carregar sons gravados por nós próprios, criar atmosferas a partir do zero ou descarregar ambientes sonoros em formato MP3, e a gravação de alterações feitas aos ambientes pré-existentes só é exequível pagando a versão completa da app.

 

Dêem uma vista de olhos ao tutorial:

 

 

 

E estes são alguns dos meus ambientes favoritos:

 

http://forest.ambient-mixer.com/summer-forest

http://lotr-sounds.ambient-mixer.com/in-rivendell

http://relaxing.ambient-mixer.com/fire-on-a-stormy-night

http://relaxing.ambient-mixer.com/stillness

http://countryside.ambient-mixer.com/scottish-rain

 

Absolutamente perfeitos para entrar em modo de leitura…

 

 

 

Entre aspas #11 Louisa May Alcott

por anacb, em 29.11.16

 

Louisa May Alcott, a autora do mais-que-célebre livro "As Mulherzinhas", faria hoje 184 anos.

 

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J. K. Rowling

por anacb, em 24.11.16

 

Falar de Joanne Rowling e do seu sucesso internacional como escritora talvez seja um pouco repetitivo – parece que tudo ou quase tudo já foi dito sobre ela, por vezes até à exaustão, invenções misturadas com factos reais. Mas não há como ignorar o seu talento para a escrita de boas histórias.

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Depois de Agatha Christie e sensivelmente a par de Enid Blyton, J. K. Rowling é a escritora inglesa de ficção mais vendida em todo o mundo. Aliás, estima-se que “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, o primeiro livro da mais-que-famosa série, tenha já vendido 107 milhões de cópias – ultrapassando “Convite para a Morte”, o livro mais vendido de Agatha Christie (também publicado com o título “As Dez Figuras Negras”, mais semelhante ao inglês, “Ten Little Niggers”). No entanto, apesar de publicado originalmente em 1997, só em Outubro de 1999 foi impressa a primeira edição portuguesa de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”.

 

Apaixonada pela leitura que sou e sempre fui, tentei transmitir essa paixão ao meu filho quase desde que ele nasceu – ainda bebé, teve direito a um livro de plástico para brincar no banho (era, mesmo a propósito, sobre um peixinho), e a colecção de livros que tinha no quarto já era invejável ainda antes de saber ler. Teve a sorte de nascer numa altura em que a literatura infantil estava em franca expansão, tanto em quantidade como em qualidade, pelo que não havia falta de material para alimentar o seu (felizmente!) crescente interesse.

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Sempre à procura de novidades apropriadas para a idade dele, foi no ano 2000 que um artigo numa revista me chamou a atenção para a série Harry Potter. O terceiro livro (“Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban”) tinha acabado de ser lançado em Portugal, mas à cautela comprámos-lhe apenas o primeiro (que já ia na terceira edição), não fosse dar-se o caso de ele não apreciar a história. Receios infundados: leu o livro num fim-de-semana e não descansou enquanto não lhe comprámos os outros dois, que também devorou num ápice. Não sei se foi por ter na altura a idade dos heróis, se porque estava com fome de novidades (já tinha lido tudo o que havia da colecção Uma Aventura, várias das histórias dos Cinco, e outros no género), a verdade é que a saga dos aprendizes de feiticeiro lhe caiu no goto e ele ficou fã. E de tal maneira que depois do quarto livro passou a ser incapaz de esperar pela edição portuguesa e passou a “obrigar-me”, de cada vez que saía um livro novo, a ir à meia-noite à livraria mais próxima comprar um exemplar em inglês mal ele era posto à venda.

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Quanto a mim, só anos mais tarde é que tive a curiosidade de ler alguns destes livros e achei a escrita dela surpreendentemente boa, não tanto pelas histórias em si – que são obviamente destinadas a um público juvenil, apesar do ambiente de violência e morte subjacente e de traços de grande maturidade nalgumas personagens – mas mais até pelo nível de linguagem e da estrutura sintáctica, que é bem menos simplista do que se poderia esperar.

 

Apesar do sucesso, da celebridade e da fortuna que os sete livros da série Harry Potter lhe trouxeram e fizeram com que passasse de muito pobre a muito rica no espaço de cinco anos, Joanne Rowling não se deixou ficar quieta e partiu para outros géneros de escrita. Em Setembro de 2012, também como J. K. Rowling (o “K.” não faz parte do seu nome verdadeiro, pediu-o “emprestado” à sua avó paterna Kathleen), foi publicado “Uma Morte Súbita”, o primeiro livro de ficção destinado ao público adulto. Ao contrário do que o título parece dar a entender, não é um policial, embora por toda a história perpasse um certo ambiente de mistério, de coisas que apenas são subentendidas, de tragédia. O título em inglês é “The Casual Vacancy”, que poderá ser traduzido mais à letra como “A Vaga Fortuita”, e o enredo gira à volta dos efeitos provocados pela morte repentina de um membro da Associação Comunitária de uma pequena terrinha em Inglaterra, particularmente pelo facto de o seu lugar na referida Associação ficar vago e ter de vir a ser preenchido. É um bom livro, embora algo triste, e gostei bastante de o ler. Joanne Rowling retrata bem o ambiente de uma cidadezinha de província que um acontecimento vulgar, embora inesperado, abala profundamente a vários níveis – razão pela qual acaba por vir à superfície tudo o que há de melhor e pior nos seus habitantes, num crescendo de dramatismo que acaba por redundar numa verdadeira guerra.

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Em Abril de 2013, a editora inglesa Sphere Books publicou e distribuiu 1500 cópias de um livro policial com o título “The Cuckoo’s Calling” escrito por Robert Galbraith, que se soube desde o início ser um pseudónimo – embora não se soubesse de quem. O segredo não conseguiu ficar guardado durante muito tempo e em Julho do mesmo ano o jornal Sunday Times divulgou que a escritora por detrás do pseudónimo era Joanne Rowling, depois de uma fuga de informação via Twitter vinda de pessoas ligadas a uma firma de advogados com quem a escritora trabalhava. Em entrevista recente à emissora de rádio americana NPR, Joanne revelou que tinha sido para ela “um prazer muito privado” escrever sob pseudónimo, sobretudo porque o facto de ser a autora de Harry Potter colocava sobre si uma enorme pressão e ela tinha vontade de criar algo bastante diferente, que tivesse sucesso ou fracasso por mérito próprio.

 

O livro foi publicado em Portugal pela Presença em Outubro do mesmo ano com o título “Quando o Cuco Chama”. Com toda a publicidade gerada pela polémica da descoberta intempestiva da verdadeira autora, o lançamento teve obviamente honras de destaque nas livrarias e na imprensa. Seguiram-se-lhe “O Bicho-da-Seda” em Janeiro de 2015 e “A Carreira do Mal” em Outubro deste ano, que acabei agora de ler e despertou em mim a vontade de escrever este post (mais ainda porque descobri entretanto que ainda existe quem goste de ler mas não saiba que Robert Galbraith e J.K.Rowling são uma e a mesma pessoa).

 

Estes três livros têm em comum os mesmos protagonistas: Cormoran Strike, um detective particular e ex-investigador da Polícia Militar, que perdeu uma perna no Afeganistão e é filho ilegítimo de um famoso cantor rock; e a sua assistente Robin Ellacott, rapariga de província desde sempre fascinada pelo trabalho de investigação policial e dotada de grande perspicácia e imaginação. Ambos têm um passado (e presente) atribulado e cheio de fantasmas, e deixam que os seus sentimentos, inseguranças e intuição interfiram nas investigações de que são encarregados – o que por vezes os coloca em perigo, mas sempre (obviamente!) com bons resultados. Em volta deles gravitam mais algumas personagens secundárias: irmãos e irmãs, pais, noivo e namoradas, agentes da Polícia, cada um com características de personalidade bem definidas e que servem sobretudo para agitar a vida pessoal dos protagonistas e para enriquecer a história de cada livro com acontecimentos e pormenores, muitos deles à margem da investigação.

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Nesta série – que a autora já admitiu ir ter nove livros no total, mais dois do que a saga Harry Potter – Cormoran Strike é o arquétipo do anti-herói que só o é aparentemente, pois na realidade acaba por se revelar um herói verdadeiro: homem destemido e defensor da justiça e da verdade, reservado e respeitador mas cheio de traumas de infância e com um passado atribulado, a que se junta a amargura provocada pelo acidente que lhe custou uma perna e a adorada carreira militar, e também a sombra de uma antiga história de amor que foi tudo menos pacífica.

 

Robin é o seu contraponto, a típica rapariga vinda de uma família tradicional, sensível, bem comportada e prestes a casar. Em comum com Strike tem a inteligência, a curiosidade, o gosto pela investigação, e um acontecimento traumatizante no seu passado (que só ficamos a conhecer no terceiro livro).

 

Como é normal acontecer em todos os enredos que envolvem protagonistas de sexos diferentes, e apesar de Robin estar noiva, existe entre ambos uma implícita atracção, que nenhum deles assume mas vai aumentando e tornando-se mais perceptível em cada livro. Esta negação, por parte dos protagonistas, de sentimentos que parecem mais que óbvios para quem lê é logicamente mais um factor de interesse e de “suspense”, inteligentemente pensado para nos manter na expectativa e a ansiar pelo próximo livro.

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“Quando o Cuco Chama” foi para mim uma agradável surpresa. Li-o assim que saiu e restaurou a minha fé nos policiais, numa altura em que eu andava um bocado arredada do género (apesar de ser um dos meus favoritos) e achava que depois de Stieg Larsson já pouco se conseguiria fazer de diferente. O enredo e as personagens criadas pela escritora despertaram o meu interesse e mantiveram-me agarrada ao livro sem ponta de aborrecimento até ao final que, como convém, é surpreendente. Não vou dizer que Joanne Rowling reinventou o policial – nada disso. Muito pelo contrário, simplesmente pegou nos elementos clássicos de um romance policial e vestiu-lhes uma roupa nova, devidamente actualizada para o contexto dos nossos dias, misturando-os com uma pitada de violência q.b. e um pouco de drama pessoal e social (talvez inspirada pelos policiais nórdicos…) para evitar que as personagens sejam completamente estereotipadas. O resto ficou por conta da sua própria imaginação que, como deu para perceber nos seus primeiros livros, é bastante produtiva.

 

Não posso dizer que “O Bicho-da-Seda” me tenha causado a mesma empolgação. Achei a história algo menos interessante e mais confusa do que a do primeiro livro, e fiquei ligeiramente (mas só ligeiramente) decepcionada. Mas “A Carreira do Mal” obliterou completamente essa impressão menos boa com que tinha ficado. É, quanto a mim, o melhor dos três livros – e isto apesar de ter sido o único em que consegui deduzir antecipadamente quem seria o “mau da fita”. Mais movimentado, violento e dramático do que os anteriores, o enredo deste livro gira à volta da vida pessoal dos protagonistas da série. Sabe-se desde o início que o criminoso é alguém que procura vingar-se de Cormoran, pois de vez em quando é introduzido um capítulo em que o narrador é o próprio assassino. Apercebemo-nos também de que essa vingança irá envolver Robin como vítima, enquanto se desenrola em paralelo o drama do seu casamento iminente, cuja concretização já de si periclitante fica seriamente comprometida pela revelação de acontecimentos passados. Aliás, desde o primeiro livro que a antipatia por Matthew, o noivo de Robin, vai propositadamente aumentando, e de certeza que não sou a única a torcer para que ela abra os olhos e perceba finalmente que o seu noivo é um autêntico traste.

 

E sobre os livros não vou dizer mais nada a não ser isto: são um excelente entretenimento, muito acima da média, e aconselho vivamente a sua leitura.

 

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O êxito da série Cormoran Strike levou a que, como seria de esperar, os livros já estejam a servir de base para uma série televisiva, cujas filmagens tiveram início este mês em Londres. Strike vai ser interpretado pelo actor britânico Tom Burke (já conhecido das recentes séries “Os Mosqueteiros” e “Guerra e Paz”), enquanto que o papel de Robin foi confiado à encantadora Holliday Grainger (que encarnou Lucrécia na série “Os Bórgia”). Podem ir seguindo as novidades pelo Twitter (https://twitter.com/RGalbraith). Como fã de séries inglesas que sou, espero sinceramente que não demorem muito tempo para a transmitir.

 

E já agora, que venha depressa o próximo livro.

 

Para conhecerem mais pormenores sobre Joanne Rowling e as suas obras aconselho a visita aos sites oficiais da escritora: http://www.jkrowling.com/ e http://robert-galbraith.com/.

 

 

Obrigada, SAPO! #7

por anacb, em 02.11.16

 

O Sapinho voltou a destacar mais um post dos meus – foi ontem, mas ando tão atarefada que só hoje dei por isso.

E nesta época só podia ser sobre ficção fantástica, pois está claro J))

 

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Mais uma vez, obrigada à equipa do Sapo Blogs!

 

Terror, horror, fantástico e coisas assim

por anacb, em 31.10.16

 

Desde que me lembro, sempre tive medo do escuro. Medo mesmo, a ponto de durante algum tempo precisar de dormir com uma lamparina acesa (sim, naquela altura ainda se usavam lamparinas) à entrada do quarto. A minha nictofobia durou muitos anos, e já era bem adulta quando finalmente passou. Escusado será dizer que fui também uma miúda facilmente impressionável, por isso nunca convivi muito bem com histórias que envolvessem monstros, seres sobrenaturais e afins. Estranhamente, o sangue nunca me incomodou – podia ver ou ler sobre as maiores sangueiras do mundo, que isso não me afectava. Mas bastava lançarem um espírito demoníaco ou um alien predador na história para me verem toda encolhidinha de medo.

 

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Tinha aí uns quinze anos quando li “O Exorcista” de William Peter Blatty, que tinha na altura dado origem ao filme. Acabei de o ler já noite dentro, e estava tão aterrorizada que me levantei e fui acendendo as luzes todas da casa até chegar à divisão onde a minha irmã dormia para a acordar sem cerimónias e lhe pedir para ficar a falar comigo durante um bocado.

 

A experiência foi suficientemente traumatizante para me manter arredada de livros do género durante muitos anos.

 

Mas o mesmo não posso dizer em relação aos filmes, pois de vez em quando lá caía na asneira de ir ver um filme de terror, fosse porque desconhecia que era desse género, fosse porque a curiosidade falava mais alto do que a minha cautela, fosse porque alguém acabava por me convencer a ir com o argumento de que estaria a perder “um filme muito bom”. E se “O Tubarão”, por exemplo, não me afectou por aí além, o mesmo não posso dizer do “Drácula” na sua versão de 1979, de “A Semente do Diabo” (mais conhecido pelo título original, “Rosemary’s Baby”), ou de “Alien, o 8º Passageiro” (o primeiro filme da saga), que me deram pesadelos durante inúmeras noites – isto só para citar alguns.

  

A verdade é que eu cresci numa época em que a ideia do mundo era transmitida às crianças como um lugar cheio de perigos desconhecidos, fossem eles de origem humana ou sobrenatural. Até as histórias supostamente infantis mais populares pareciam ter como missão aterrorizar mais do que distrair: um lobo que come pessoas, uma bruxa que oferece uma maçã envenenada, uma casinha de chocolate onde vive uma bruxa que come criancinhas, um país onde a rainha ordena indiscriminadamente que se cortem cabeças… Convenhamos que nada disto era propriamente adequado a tranquilizar espíritos timoratos.

 

Era uma altura em que os dinossauros eram monstros horrorosos e destruidores como a “Godzilla”, os vampiros eram seres demoníacos sem um pingo de bondade no corpo, e os zombies apareciam não se sabe bem porquê e eram praticamente invencíveis. Hoje mudou tudo: os dinossauros viraram bichos fofinhos e maioritariamente inofensivos, os vampiros e lobisomens são personagens românticos e incompreendidos, e os mortos-vivos são as pobres vítimas de uma qualquer experiência que correu mal e há até quem se dedique a tentar encontrar uma cura para a sua doença. Talvez por oposição ao mundo, que parece estar cada vez mais perigoso e louco, a imagem dos misteriosos representantes do Mal de outros tempos tem vindo a ser progressivamente “adocicada”.

 

Apesar disso – ou, quem sabe, por causa disso - o género está bem e recomenda-se, tanto na literatura como no cinema.

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E a propósito de género, de que é que falamos quando falamos em ficção de terror, horror, fantástico e etc.?

 

A linha que divide o terror do horror é tão fina que muitas vezes nem conseguimos separar um do outro. Mas existe alguma diferença. O terror é geralmente descrito como sendo um sentimento de pavor, de medo antecipado, quando achamos que algo de muito mau vai acontecer. Já o horror é o que sentimos quando vemos ou ouvimos algo que nos causa repulsa, ou passamos por uma experiência extremamente desagradável. O terror está relacionado com os nossos medos e ansiedades, com a nossa imaginação, e anda frequentemente de mãos dadas com o suspense, enquanto o horror é uma reacção involuntária na sequência de um acontecimento que nos choca ou amedronta.

 

A ficção fantástica é toda aquela que aborda factos que fogem à nossa lógica e à nossa realidade. Pode contar-nos histórias de fantasia, sobrenaturais ou ir pelos caminhos da ficção científica. Pode manter-nos em suspense, criar atmosferas de terror e causar-nos horror. Pode também encantar-nos, abrir as comportas da nossa imaginação e levar-nos a mundos desconhecidos para experimentarmos emoções contraditórias. E está de muito boa saúde nos dias que correm.

 

Na verdade, cada vez há mais público fiel ao género. E mais escritores para o alimentarem, que lançam novidades a um ritmo alucinante e para todos os gostos. Na onda deste filão recém-descoberto, os clássicos são revisitados e reinventados, e alguns viram autores de culto. Criam-se sequelas e prequelas, há adaptações de livros para a tv e o cinema, e os argumentos de filmes e séries transformam-se em livros.

 

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Apesar de ter ultrapassado a minha nictofobia de forma natural e sem dar conta, a minha relação com a ficção de terror continua atribulada. Por vezes adoro, por vezes deixa-me inquieta e detesto. Mas só mesmo a de terror, que de resto sou bastante fã da ficção fantástica, e isto já desde miúda – muito provavelmente desde que a minha mãe me deu “Os mais belos contos de fadas” (de que já falei aqui) e mais tarde alguns livros de Júlio Verne, que foi sem dúvida o precursor da ficção científica moderna. Em adolescente li os clássicos “A guerra dos mundos” de H.G.Wells, “1984” de George Orwell, “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley, e “Tales of Mistery & Imagination”, uma compilação de alguns dos melhores contos de Edgar Allan Poe, que ainda hoje continuam a ser dos meus livros preferidos. E “Fahrenheit 451” e outros de Ray Bradbury, além das obrigatórias obras de culto “Drácula” de Bram Stoker e “Frankenstein” de Mary Shelley. Mais tarde “descobri” Tolkien e o seu “Hobbit”, Isaac Asimov e a sua “Fantástica viagem ao cérebro”, e a saga “Dune” de Frank Herbert.

 

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Li “Contacto”, de Carl Sagan, assim que saiu, vários de Michael Crichton (o autor de “Parque Jurássico” e “A Esfera”) e “Um estanho numa terra estranha” do polémico Robert Heinlein. Depois viciei-me em Stephen King (também já falei sobre ele neste post) e li também George R.R.Martin, o autor das “Crónicas de gelo e fogo”, que deram origem à série “A Guerra dos Tronos”. E sabiam que até Isabel Allende já fez “uma perninha” no campo do fantástico? Não falo de “A casa dos espíritos”, que se enquadra na corrente do realismo mágico, mas sim de uma trilogia que escreveu entre 2002 e 2004 e dá pelo nome genérico de “As aventuras da Águia e do Jaguar” e cujos protagonistas são dois adolescentes e um macaco que se vêem enredados em estranhas aventuras em vários pontos do globo – histórias onde as espiritualidade e o sobrenatural se entrelaçam com uma nítida preocupação ecológica e antropológica.

 

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Podia ainda falar de Anne Rice, Clive Barker, Justin Cronin ou Gillian Flynn, e de muitos outros, ou das famosíssimas J.K.Rowling e Stephanie Meyers, mas então é que este post não terminava nunca…

 

É como eu disse acima: a ficção fantástica, seja de terror ou outra, está de boa saúde e a florescer a olhos vistos. Eu gosto. E vocês?

 

Entre aspas #10 Annie Dillard

por anacb, em 06.10.16

 

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O Gerente da Noite

por anacb, em 03.10.16

 

Já aqui falei por alto de cinema e da relação estreita entre livros e filmes, mas hoje vou falar de televisão. Mais concretamente, de séries televisivas.

 

Longe vai o tempo em que as séries que víamos na televisão eram os parentes pobres do cinema. Cá em Portugal quase se resumiam a séries policiais americanas e a uma ou outra produção inglesa ou eventualmente com outro país de origem (não estou obviamente a incluir as sitcoms, que sempre abundaram). Tinham em comum o facto de serem habitualmente interpretadas por actores e actrizes pouco ou nada conhecidos no mundo cinematográfico – eram assim como que um laboratório para novos actores, e para quem é mais jovem ou tem memória curta deixem-me dar-vos alguns exemplos de que me lembro assim de repente: Anthony Hopkins foi o Pedro de “Guerra e Paz”, na adaptação que a BBC fez em 1972 da obra de Lev Tolstoi; Meryl Streep e James Woods fizeram par romântico na mini-série “Holocausto” exibida em 1978 pela NBC; Jeremy Irons foi um dos protagonistas de “Reviver o passado em Brideshead”, uma série de 1981 produzida pela Granada Television com base no romance de Evelyn Waugh. Estas e outras séries foram a rampa de lançamento para grandes actores do cinema actual.

 

No entanto, apesar da sua inegável qualidade – sobretudo das séries britânicas, que foram e continuam a ser do melhor que por aí anda – as séries televisivas só há relativamente poucos anos adquiriram um estatuto autónomo de produto com interesse e qualidade no qual vale a pena apostar, com retorno garantido. Os bons resultados estão à vista, com produções milionárias e ao nível do melhor cinema, dirigidas por excelentes realizadores e protagonizadas por actores famosos – ao imporem-se como produto independente e valorizado, as séries televisivas conseguiram esbater a fronteira rígida que subsistiu durante muito tempo entre actores de televisão e actores de cinema (que curiosamente nunca existiu entre cinema e teatro, talvez por ambas as artes estarem associadas a uma ideia de qualidade e elitismo que a televisão nunca teve). E quem ficou a ganhar fomos nós, o público.

 

As séries britânicas sempre foram das minhas favoritas. Não há quem lhes chegue aos calcanhares sobretudo no que toca a recriar épocas passadas e romances históricos, e os actores e actrizes oriundos das ilhas britânicas (e para quem tiver dúvidas, as ilhas britânicas incluem a Irlanda) são dos melhores do mundo. Tão bons que conseguem imitar perfeitamente o sotaque norte-americano e por vezes nem nos damos conta de que não foram realmente nados e criados nos Estados Unidos. Dúvidas? Então aqui vão alguns nomes ao acaso: Audrey Hepburn, Michael Caine, Kate Winslet, Idris Elba, Ralph Fiennes, Keira Knightley, Ewan McGregor, Catherine Zeta-Jones, Hugo Weaving, Sam Neill, Vanessa Redgrave, Gerard Butler, Kiefer Sutherland, Orlando Bloom, Rachel Weisz, Christian Bale, Jude Law, Carey Mulligan, John Hurt, Jason Statham, Rosamund Pike, Tim Roth, Julie Christie, Christopher Lee, Damian Lewis, Joan Collins, Gary Oldman, Ian McKellen, Kate Beckinsale, Colin Farrell. E estes são só alguns dos que mais associamos ao cinema americano, porque a lista é quase infindável.

 

Bom, mas vem isto tudo a propósito de quê?

 

É que fiquei apaixonada por uma mini-série de que já tinha ouvido falar bastante mas só agora tive oportunidade de ver (no canal AMC): “O Gerente da Noite”, a partir do livro homónimo de John Le Carré. São apenas seis episódios, mas muito intensos, bem realizados, bem produzidos, e sobretudo muito bem interpretados.

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John Le Carré, cujo verdadeiro nome é David John Moore Cornwell, trabalhou durante alguns anos no MI6 (o serviço britânico de “informações”) e os seus primeiros livros giram à volta da espionagem no tempo da Guerra Fria, tendo a temática mudado depois para os conflitos religiosos e/ou éticos mas sempre com a espionagem como pano de fundo. Vários deles foram adaptados ao cinema, com mais ou menos sucesso, como “A Casa da Rússia”, “O Alfaiate do Panamá” ou “O Fiel Jardineiro”, entre outros. Os seus livros têm em comum enredos intrincados, personagens profundamente humanas e conflitos morais, mas a linha entre o bem e o mal está sempre nitidamente definida.

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A história de “O Gerente da Noite” centra-se em Jonathan Price, um gerente de hotel que se vê inadvertidamente recrutado para se infiltrar na entourage de um poderoso negociante de armas que os serviços secretos britânico e americano querem apanhar. Roper é um homem ganancioso e sem escrúpulos que esconde habilmente as suas actividades ilícitas atrás de uma capa de filantropia e de uma vida privada inexpugnável. Empurrado pelos serviços britânicos de espionagem e por uma vontade pessoal de vingança – o assassinato de uma mulher com quem tinha tido um breve relacionamento – Price vai construir para si um passado violento e sujeitar-se a tudo para penetrar no mundo privado de Roper e tentar obter provas da sua má conduta.

 

O argumento da série tem diferenças substanciais em relação ao livro, mas o resultado final é muitíssimo bom. Uma das maiores alterações é o facto de o agente que convence Price a aproximar-se de Roper ser na série uma mulher (Angela Burr), e não um homem como no livro (Leonard Burr). Mais ainda, Angela Burr está grávida (devido à própria e muito visível gravidez da actriz Olivia Colman), o que dá à personagem e consequentemente à história uma dimensão mais humana e real. Além disso, a acção foi transportada para a actualidade, com o cartel colombiano de droga do livro a ser substituído por negociantes de origem árabe e um lógico deslocamento geográfico dos eventos. E o final da série é também bastante diferente – mas quanto a isso não vou falar para não ser spoiler.

 

Com tudo isto, já devem ter percebido que a série é de produção maioritariamente britânica (da BBC, em parceria com as americanas AMC e Ink Factory), razão pela qual os actores também são quase todos britânicos, com grande destaque para os protagonistas: Tom Hiddleston (Jonathan Price) e Hugh Laurie (Richard Roper). Para os mais distraídos, Hiddleston é o “Loki” de “Thor” e “Os Vingadores”, e Laurie é nada mais nada menos do que o famoso “Dr. House”. Qual deles o melhor… Hiddleston já provou várias vezes que é bem mais do que uma carinha laroca, e arrisca-se seriamente a ser o próximo Bond – aliás, este seu Jonathan Price tem o factor coolness exacto para um hipotético 007, faltando-lhe apenas uma atitude algo mais blasé e quiçá mais “activa” para ser um alter ego do famoso espião (que tem vindo progressivamente a tornar-se mais “humano” de actor para actor). Quanto a Hugh Laurie, descoberto há uns anos pela América, tem carreira já bem mais longa e firme no Reino Unido. Além de House, por cá vimo-lo sobretudo em comédias, nomeadamente em várias das hilariantes séries “Blackadder”, em “A Bit of Fry and Laurie” (com o também excelente Stephen Fry) e nos filmes “Stuart Little”, mas ele é um artista multifacetado que além do mais canta, toca e tem dado a voz a inúmeras personagens de filmes de animação.

 

“O Gerente da Noite” entusiasmou-me também pelos bem escolhidos cenários da série: Maiorca, Istambul, Cairo, Devon e Zermatt. Embora na realidade as cenas passadas no Cairo e Istambul tenham sido rodadas em Marrocos e as de Zermatt quase todas em estúdio, há belíssimas imagens das cidades e paisagens que são mostradas em separador. Já a mansão de Roper em Pollença (norte de Maiorca) existe realmente; tem o nome de Sa Fortaleza, data do séc. XVII e pertence ao banqueiro inglês Lord James Lupton, sendo a propriedade mais cara de Espanha (foi comprada em 2011 por 40 milhões de euros). As imagens aéreas da zona filmadas para a série são de tirar o fôlego e fazem jus à beleza do lugar.

 

Só o trailer já é qualquer coisa de especial:

 

E já que falo de séries inglesas, deixo aqui a sugestão de algumas das minhas preferidas, para quem ainda não as tiver visto: Sherlock, Luther, Downton Abbey, The Office, The Bletchley Circle, Coupling, Prime Suspect, Two Pints of Lager and a Packet of Crisps, Pride and Prejudice, The Paradise. Há comédia, drama, crime e mistério, história, grandes romances – um pouco de tudo, para todos os gostos. E ao alcance de uns cliques.