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Gene de traça

Livros e etc.

Um policial clássico escrito a várias mãos

por anacb, em 24.08.14

 

“QUEM MATOU O ALMIRANTE?”

 

The Detection Club 

 

 

 

Título: Quem Matou o Almirante?

Título original: The Floating Admiral

Autor: The Detection Club

Ano de lançamento: 1931

 

Editora: Edições Asa II

Publicação: 1ª edição – Junho 2014

Número de páginas: 344

Tradução: Mário Dias Correia

 

 

Confesso que já andava com algumas saudades de ler um policial clássico, daqueles em que o objectivo do enredo é simplesmente descobrir quem cometeu o crime, como e porquê. E quando vi que um dos autores deste livro era Agatha Christie, ainda fiquei mais curiosa.

 

Sendo um clássico no conteúdo, na forma como foi escrito este policial já não o é tanto assim. De facto, “Quem Matou o Almirante?” tem nada mais nada menos do que treze autores (catorze, se considerarmos que um deles é o casal G.D.H. Cole e Margaret Cole), cada um encarregue de escrever um capítulo, e todos eles membros do The Detection Club. Este Clube, de origem algo misteriosa mas que sobrevive até hoje, é constituído por autores de ficção policial do Reino Unido (actualmente tem cerca de sessenta membros), cuja admissão está dependente de cumprirem algumas condições e prestarem um juramento de fidelidade ao Clube, às regras de ficção policial estabelecidas pelo mesmo, e aos leitores. Embora, nas palavras de Dorothy L. Sayers, uma das fundadoras, ele exista “sobretudo com o propósito de jantarmos juntos a intervalos regulares e falarmos de trabalho até às tantas”.

 

O enredo é basicamente simples, como é habitual nestas novelas: numa típica e sonolenta vilazinha inglesa é encontrado um cadáver num barco à deriva no rio. O inspector Rudge, um também típico polícia inglês de província, vê-se a braços com a complicada tarefa de tentar descobrir quem foi o autor do crime, para o que terá de desenredar uma intrincada meada que envolve suspeitos vários, motivos obscuros, personagens misteriosas, amarras cortadas, horários de marés, peças de vestuário diversas, um jornal e uma chave, e um sem número de outros pormenores que vão adensando a trama à medida que a história progride.

 

Mas se a história de base promete, tal como a maioria dos policiais clássicos, várias horas de leitura empolgante até ao último capítulo, onde a chave para a solução do crime é finalmente desvendada, na prática o resultado fica bastante aquém do esperado. Depois de um prólogo enigmático e três ou quatro capítulos em que o trabalho detectivesco segue um fio coerente, liderado por um inspector classicamente caracterizado, e cada personagem que surge contribui com novos elementos que adensam o mistério, o enredo começa a descambar à medida que cada autor parece fazer questão, no capítulo com que contribui para o livro, em “baralhar” o cenário a seu bel-prazer e de forma por vezes quase absurda. Há reviravoltas constantes, com factos novos e por vezes pouco credíveis a serem introduzidos em qualquer momento, pistas que parecem prometedoras e importantes num capítulo são descartadas num ápice ou simplesmente esquecidas no capítulo seguinte, e a própria caracterização dos intervenientes é quase constantemente posta em causa não só pelos novos factos que vão surgindo, como principalmente pela atracção que cada autor parece ter por imprimir o seu cunho muito pessoal aos “bonecos” criados para a história, dando prioridade ao seu próprio estilo em detrimento da homogeneidade do livro. Esta “oscilação de humores” é particularmente visível no caso do inspector Rudge, que é afinal de contas a personagem principal do enredo, e cuja personalidade vai apresentando tantas variações de capítulo para capítulo que chega a ficar por vezes irreconhecível.

 

No capítulo VIII a história já está tão baralhada que Ronald Knox decide ocupar as suas trinta e oito páginas com uma longa e fastidiosa lista de “trinta e nove artigos de dúvida” que se acumularam até ali, o que só piora a situação. São muitas páginas aborrecidas e praticamente desprovidas de interesse para o leitor e que cortam quase completamente a relativa curiosidade que o enredo despertava até essa altura. Poderiam ser eventualmente úteis para os seus colegas escritores que se lhe seguiram, mas na verdade não foi esse o resultado, porque daí para a frente a trama parece tornar-se ainda mais intrincada. Por esta altura, o livro parece um comboio prestes a descarrilar.

 

O último capítulo, por força das circunstâncias, acaba por ser quase um livro dentro do livro. A meada está tão enredada que não é possível desenleá-la em poucas palavras. Anthony Berkeley precisa de quase setenta páginas para o fazer, e mesmo assim o resultado é pouco mais do que sofrível – mas diga-se em sua defesa que não é possível remendar sem deixar marcas um tecido que tem tantos buracos.

 

Cada cabeça, sua sentença, e este livro é a prova disso. Apesar de todos os autores, com excepção dos que escreveram os dois primeiros capítulos, terem sido obrigados a entregar com o seu manuscrito a solução que proporiam para finalizar a história, obviamente tendo em conta o ponto em que ela se encontrava quando saía das suas mãos, este pormenor não parece ter contribuído para que o resultado geral do livro fosse melhor. Todas estas soluções são-nos também reveladas em Apêndice e embora umas sejam mais engenhosas ou verosímeis do que outras, a verdade é que não ajudam a aligeirar a imagem global de que este livro poderá ter sido um cativante exercício de escrita para os seus autores mas é incapaz de despertar, mesmo que remotamente, o mesmo interesse em quem o lê.

 

 

Estou a ler agora: O Fogo, de Katherine Neville

 

A propósito da Primeira Grande Guerra

por anacb, em 03.08.14

 

A VIDA SECRETA DE STELLA BAIN

 

 Anita Shreve

 

 

 

 

 

Título: A Vida Secreta de Stella Bain

Título original: Stella Bain

Autor: Anita Shreve

Ano de lançamento: 2013

 

Editora: Clube do Autor

Publicação: 1ª edição – Julho 2014

Número de páginas: 256

Tradução: Eugénia Antunes

Revisão: Rui Augusto

 

 

A minha categoria de livros preferida é sem dúvida o romance histórico. O facto de a trama se situar numa época mais ou menos remota permite uma variedade infindável de temas abordados, de personagens que podem ser totalmente fictícias ou reconstituídas com maior ou menor fidelidade a partir de factos verídicos, de pormenores e descrições que me ensinam sempre algo que desconhecia. Proporcionam distracção e aprendizagem em simultâneo, satisfazem a minha curiosidade e ao mesmo tempo incentivam-me a querer saber mais sobre determinados assuntos. E é por isso que são frequentemente a minha primeira opção quando penso em comprar mais um livro (ou vários…).

 

Este novo livro de Anita Shreve, acabadinho de publicar no nosso país, aborda precisamente (e é muito provável que tenha sido lançado de propósito nesta altura) a efeméride de que mais se tem falado nos últimos tempos: a Primeira Guerra Mundial, sobre cujo início formal (28 de Julho de 1914) se cumpriram agora exactamente 100 anos.

 

Abordar é, no entanto, o verbo realmente mais indicado para referir o tratamento dado a este pedaço da História em “A Vida Secreta de Stella Bain”. A Primeira Guerra serve apenas de mote para os acontecimentos descritos na primeira parte do romance, não sendo mais do que um pretexto para introduzir outros temas igualmente tratados neste livro.

 

Mas vamos à história. Em 1916, uma mulher acorda amnésica num hospital de campanha no Marne, uma das frentes de batalha da Primeira Guerra em território francês. Pensa chamar-se Stella Bain, ser americana e enfermeira voluntária, ocupação que acumula com a de condutora de ambulâncias.

 

Ao longo de vários meses, enquanto trabalha na frente, Stella vai descobrindo algumas das suas aptidões e ocorrem-lhe pensamentos que suspeita serem lampejos de memórias. É seguindo o seu instinto que acaba por se encontrar em Londres, onde é acolhida casualmente pela mulher de um médico, um especialista em cirurgia craniana que se interessa pela emergente disciplina da psicanálise e se propõe ajudá-la a recuperar a memória.

 

O percurso do livro leva-nos ainda ao New Hampshire, uma região no nordeste dos Estados Unidos, e cruza flashbacks da vida da protagonista com saltos temporais na evolução da narrativa, alterna missivas trocadas entre continentes com descrições de um julgamento em tribunal, entrança traumas de guerra com direitos das mulheres e questões morais das mais diversas espécies, onde até a pedofilia e a homossexualidade têm o seu quinhão de espaço na história.

 

E é precisamente em toda esta “misturada” que na minha opinião reside o ponto fraco deste livro. São tantos os temas explorados ou aflorados que acabamos por ficar sem perceber qual é exactamente o ponto fulcral da história. Percebe-se que tudo gira à volta da protagonista, dos seus dilemas morais e dos episódios que se vão sucedendo na sua vida, mas… A sensação com que fiquei foi que alguns desses temas foram um bocado metidos “a martelo” na narrativa, como se a autora quisesse falar de uma coisa mas depois lhe surgisse outra ideia, e depois mais outra e outra, e ela quisesse colocar tudo lá dentro mas sem na realidade conseguir (ou ter tempo para) aprofundar um pouco mais qualquer um deles. É assim como que uma espécie de “menu de degustação” de questões candentes numa época de importantes mudanças sociais e políticas, como foi o caso daquela em que tem lugar a história contada no livro (entre 1896 e 1930, com especial incidência em 1916-18). Provamos um pouco de tudo, mas não chegamos a conseguir ficar com uma ideia completa de nada, ou quase nada.

 

Quanto à vertente “romance”, essa está devidamente assegurada, ou não fosse a autora já uma escritora com grande experiência nesta área – afinal, este já é o seu 17º livro. Além disso, este livro é uma espécie de “complemento” de uma sua outra obra, “Tudo o que Ele Sempre Quis”, à qual vai buscar algumas personagens mas contando a história do ponto de vista de outra delas, neste caso o elemento feminino; e Anita Shreve é realmente exímia na criação de mulheres indómitas e muito à frente do seu tempo, mulheres que rompem com os estereótipos da época em que vivem (embora talvez exista um pouco de utopia na construção dessas mulheres, que parecem ser quase perfeitas e completamente íntegras, mesmo nos seus defeitos).

 

O tom geral da narração é circunspecto e triste, a pender para o trágico. Mesmo os momentos mais felizes são descritos com alguma gravidade à mistura. A autora não faz grandes concessões à leveza de ambientes, e muito menos ao humor. Não conheço as suas obras o suficiente para presumir que seja sempre este o seu estilo de escrita, mas assemelha-se ao utilizado no único outro livro que li também da sua autoria, “A Praia do Destino”.

 

Em resumo, é um livro escrito de forma escorreita e com uma história interessante o suficiente para nos prender até à última página, apesar do final um pouco previsível. A variedade dos temas que aborda e a superficialidade com que são tratados deixou-me com a sensação de que ficou a faltar qualquer coisa, mas mesmo assim ofereceu-me algumas horas de distracção. Não sendo fabuloso, lê-se bem, e não causa quaisquer traumas.

 

O que também já acabei de ler: Quem Matou o Almirante?, da autoria conjunta de alguns elementos do The Detection Club. Dele falarei em breve…